segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Robert Enke

Foi ontem a enterrar Robert Enke. Não vou falar da depressão crónica de que ele padecia e que é tema tabu no mundo do futebol, tão cheio de homens de barba dura. Nem vou falar do coração apertado dos benfiquistas. Nem vou falar dos sete cães abandonados que recolheu, tratou e adoptou aquando da sua estadia em Portugal e que o seguiram quando foi viver para Barcelona. Nem vou falar das campanhas para a PETA a favor dos direitos dos animais.
O que me anda a impacientar é certos comentários e reacções à  sua decisão de pôr termo à vida. Já não tenho paciência para os moralistas, sempre de dedinho espetado a criticarem tudo e todos, sempre, sempre a julgarem os outros e a excluirem-se do que criticam. Até cobarde já lhe chamaram. E, que num mundo em que tanta gente luta desesperadamente pela vida, ele não tinha o direito de fazer o que fez. Pois é, mas quem luta por viver, é porque decidiu lutar. Ele decidiu outra coisa. E, que enquanto uns lutam pela vida, o suicídio é uma afronta a quem luta. Mas, quem decidiu morrer, também se pode ter sentido ofendido com o excesso e superabundância de vida nos outros. Quando estamos cheios de dores nos olhos, a luz do sol, fere-nos mais do que nunca, é-nos insuportável. Como diz o povo: "Cada um sabe de si, e Deus de todos". Cada um sabe de si, da sua dor, da sua incapacidade de a superar, da incapacidade de viver com tanto sofrimento à volta. E, só Deus conhece o coração do suicida, ninguém mais o pode condenar. E, aqueles que pensam que estão acima destas fraquezas e minudências, não sabem que a vida dá muitas voltas e, que a fortaleza de hoje pode ser a fragilidade amanhã, o que hoje temos, amanhã já não. O que hoje são certezas, amanhã são dúvidas e nevoeiro cerrado. Já não suporto mais as pessoas que passavam a vida a cuspir para o alto e a dizer: EU, nunca!



10 comentários:

Turmalina disse...

Eu acho que é preciso muita coragem...
Conheci duas pessoas que deram fim à vida.
Uma era um sujeito que sofrera muito a vida toda, dores pesadas e que não resistiu ao diagnóstico de um tumor cerebral que estava tirando-lhe as funções neurológicas dia após dia.Este teve coragem para apertar o gatilho...
Já o outro era viciado, drogado e não aguentou as cobranças como pai, filho e marido.Esse desistiu de lutar um pouco cedo.Faltou-lhe coragem...
Não é possível julgarmos este ou aquele suicida.

WOLKENGEDANKEN disse...

Muito bem escrito, Zoe, e acho que muito verdadeiro: temos o direito de viver ou morrer. Eu nao sou crista, nem acredito em deus, mas aprecio as muitas verdades da biblia: como foi por exemplo isso de tirar a primera pedra ....

Vagamundos disse...

Lá terá tido as suas razões e é importante respeitar isso. É muito fácil falar de cor. O que muitas pessoas não entendem é que a depresão é uma doença. E as pessoas morrem das doenças. Além de que o respeito deve ser extensivel aos membros da familia que querem perservar uma boa memoria, e comentários negativos como os que mencionas não ajudam.
Beijinhos

Luisa Moreira disse...

Zoe,

Só quem não tem, teve, uma depressão, não pode avaliar o acto daquele homem por quem chorei a morte. Vive-se por vezes num beco sem saída, por mais que nos apontem o caminho. tenho pena dos ignorantes, porque têm uma doença tão incurável como a depressão.

Beijinhos
Luisa

Zoe disse...

turmalina, de facto, deveria ter sido preciso muita coragem para deixar mulher, filha bebé e os cães, e sobretudo saber que todos eles iriam sentir a falta dele...não são só as pessoas que sentem a falta de quem parte, os animais também sentem falta, não compreendem onde está aquela pessoa que os amava tanto...
beijinho
zoe

Zoe disse...

wolk, eu acredito em Deus, mas num Deus misericordioso, que vê o coração dos homens, não que os condena ao fogo eterno.
beijinhos
zoe

Zoe disse...

vagamundos, é isso: as pessoas falam de cor, falam daquilo que não sabem, cospem para o ar, esquecendo-se que, um dia, tudo isso pode vir por ai abaixo.
beijinho
zoe

Zoe disse...

pois é Luísa, quem nunca teve uma depressão, não sabe que pode vir a ter...não sabem que poderemos vir a ser a coisa mais frágil que existe neste mundo.
beijinho
zoe

Zélia disse...

Nunca se sabe o que vai na cabeça dos outros, por mais que os conheçamos. Muitas vezes as pessoas sorriem...são titulares da sua selecção...aparentemente têm tudo para estar felizes, mas nas suas mentes impera a escuridão! Quem somos nós para julgá-los!

Compreendo a escolha de Enke, certamente, não viu outra solução...chegou ao seu limite.
Outros há que tiram a vida a outros (tiroteios nos EUA), mães que matam os filhos...

Zoe disse...

viva zélia
parece que vivemos num mundo de aparências, quem parece feliz, talvez não seja, quem parece infeliz, talvez seja feliz, para deixar para trás tudo o que ele deixou, é porque estava mesmo no final da linha, sim, porque ele era um ser amado, estava rodeado de seres que o amavam, não chegou.
n somos mesmo ninguém para o julgar, espero que descanse,
beijinho
zoe