quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Anne Frank Video July 21, 1941

Com os Holandeses*

Introdução

Estava eu a rabiscar as linhas que se vão seguir, debaixo de um chapéu-de-sol, a proteger-me do calor tórrido de um sábado à tarde de Julho, na Costa da Caparica, eis quando senão levanto a vista do caderno e avisto uma coisa com dois braços e duas pernas a caminhar na minha direcção, em grandes passadas, apesar da areia que fervia. Tinha uma gigantesca cruz suástica tatuada no peito, que lhe ocupava, sem exagerar, dois terços do mesmo. Como é que o gajo adivinhou o que eu estou a escrever, pensei, isto devem ser poderes dos anjos caídos que fazem pactos com o demo. Mas, a coisa ao chegar perto do meu chapéu, guinou para a direita e continuou caminho. Uff! Salvei-me por pouco, pensei. O rascunho ficou esquecido entre as páginas de um caderno. Pouco tempo depois haveria de ficar sem o meu PC por mais de um mês e meio e, envolvida em trabalho e cefaleias, acabei por o esquecer, assim como o veraneante tatuado da Caparica. Nas minhas limpezas de fim-de-ano, quis o destino que eu folheasse o caderno onde o rascunho descansava desde o Verão e o encontrasse. O tema é intemporal e por isso posso publicá-lo hoje.


«Já recebi e já li Com os Holandeses que José Rentes de Carvalho tão gentilmente me enviou de Amesterdão. Se eu tivesse lido este livro antes das eleições europeias, não teria ficado surpreendida com os resultados eleitorais da extrema-direita nos Países Baixos, pois as crónicas escritas por Rentes de Carvalho em 1971 denunciavam já tiques racistas na sociedade holandesa. Enfim, nada que eu não soubesse, embora não o quisesse saber, preferindo refugiar-me na idealização de uma sociedade quase-perfeita, guardando intacta a ideia da Holanda como o país mais tolerante do mundo, como eu achava, dizia e repetia. É que, para uma pessoa se manter à superfície tem de manter uma ideia romântica aqui, um desejo ali, um sonho acolá. A vida não pode ser só consumida pelo quotidiano, a torneira que pinga, a lâmpada da cozinha que se fundiu, a trituradora da varinha mágica que se soltou, a roda do carrinho de compras que se partiu, a cadela que está com os intestinos desarranjados, a gata que vomita, o gato velhote que urina fora do recipiente e transforma a casa-de-banho em pequenos lagos suíços. Não pode ser. Tem de haver alguma coisa que transcenda o dia-a-dia e lhe dê alguma magia. A vida não pode ser só um corre-corre, o supermercado, estender roupa, tirar roupa, dobrar roupa. Deitar e levantar a limpar excrementos de animais. Não, não pode ser. Temos de encontrar ideias românticas que nos ajudem a manter a cabeça de fora. O interesse pela Holanda vem de longe. Não sei de onde. Já antes de lá ter ido e de ter amigos holandeses eu sentia por este país um desejo de o visitar, de ir. A Amesterdão. Quando lá estive foi aquela sensação do já lá ter estado. Quando? Não sei. Já lá teria estado o sangue que me corre nas veias, o ADN que me estrutura? Não sei quem sou, de onde venho __e isto não é um lugar comum, não sei mesmo. Mas, quero saber. Comecei a fazer pesquisas da minha árvore genealógica, que estão agora interrompidas, porque a minha bisavó materna aparece como Ana Emília no registo paroquial e Ana Joaquina no registo do cartório e para poder avançar árvore acima tenho primeiro de desvendar este mistério. Quem sabe se antepassados meus (após a perseguição iniciada aos judeus no reinado de D. Manuel I, em 1496 e consolidada com a entrada em funcionamento do Tribunal da Inquisição em 1540) não se teriam instalado nas margens do Amstel? Embora me pareça pouco provável que posteriormente os descendentes destes antepassados tenham voltado a Portugal e se tenham instalado no Norte, amanhando terras. Mas, com quatro séculos no meio, muita coisa se poderá ter passado. O que é irrefutável é que foi neste país que muitos judeus portugueses perseguidos se refugiaram e fixaram, tendo adquirido a colónia em 1615 plenos poderes, segundo Cecil Roth no seu A História dos Marranos, tendo o maior período de prosperidade holandesa coincidindo com o período de migração e actividade dos judeus fugidos da Península Ibérica. Acrescenta ainda Roth, que nas margens do Amstel, na Jodenbreestraat, parecia que se tinham erguido uma Lisboa ou uma Madrid em miniatura, sendo o português e o espanhol as línguas oficiais das comunidades, sendo ouvidas por toda a parte nas ruas. E, os apelidos portugueses ficaram. Na Central Database of Soah Victim´s Names é impressionante os Silva, Gomes, Mendes, Nunes, Pinheiro, Vaz, Oliveira que podemos encontrara. Como Graham Green diria, no Terceiro Homem:"… Martins, o sólido apelido holandês..."
Não é por acaso que este post foi publicado hoje, dia 27 de Janeiro, mas por ser o Dia em Memória das Vítimas do Holocausto, e penso com muita carinho nos antepassados de Claude Racadot __que se fosse vivo faria hoje anos__, cuja família, da parte da mãe, teria desaparecido nos campos de concentração.
E, dedico-o também à memória de Miep Gies, a mulher que ajudou a família Frank a esconder-se dos nazis, que foi a guardiã do diário de Anne e que morreu recentemente, no passado dia 11 de Janeiro, com cem anos. E, à memória de Aristides de Sousa Mendes e a todos, todos os que têm uma árvore plantada no Jardim dos Justos.

* título de um livro de José Rentes de Carvalho

8 comentários:

Silvana Nunes .'. disse...

Estou ainda tentando me ambientar com vocês do outro lado do oceano.
Beijo grande.

Zoe disse...

Olá Silvana,
Alguma coisa que queira saber, diga.
beijinho do outro lado do oceano, com frio...
zoe

Hapi disse...

hello... hapi blogging... have a nice day! just visiting here....

César Ramos disse...

Zoe,

Comungo neste blog o celebrar do dia de prestar homenagem às vítimas do Holocausto.

Elaborou este post com muita dignidade, e com grande sentido pedagógico.
Se me permitir..., apresento-lhe os meus Parabéns!

O que não engulo é a postura [má] do Arcebispo da Cracóvia - Tadensz Pieronek -, que disse ser o Holocausto uma inventona dos Judeus!
Tenham "dó"...!!
Os Inquisidores - a juntar o do Irão - lá se entendem..., e fazem costas uns com os outros!

Serão os 'ossos' do "Santo Ofício"!?

"Ainda bem, que os cristãos 'nunca sofreram' perseguições e torturas bárbaras"...

Mas que Bispo tão estúpido...!

Saudemos as vítimas, porque através de as lembrarmos e desenvolvermos o estudo do Holocausto, reconhecem-se e detectam-se outros genocídios, para memória futura..., para evitar que se repitam...

Um abraço

César Ramos

Zoe disse...

Obrigada César pelas palavras amáveis sobre o conteúdo do post.
a memória das vítimas do holocausto está esquecida e ignorada em grande parte devida à actual política externa de Israel, o anti-semitismo ataca desde a extrema -direita neonazi, ao islamismo radical e ao que pareece católico também , que eu nem conhecia esse cracoviano. como podem negar os factos documentados em fotografia? em testemunhos?
abraço
zoe

Turmalina disse...

É, minha amiga...boa parte da família da minha mãe se perdeu pela história.Minha bisavó nasceu na Bessarábia(hoje Romênia), casou-se com meu bisavô em St. Petersburgo, aonde ele nasceu e viveu até 1917, que é quando vieram para o Brasil.Meu avô nasceu lá mas foi registrado como nascido aqui.Eles tiveram mais uma filha , que morreuE ainda pequena e um segundo filho que morreu antes da meu avô, que também já se foi.E assim sendo, deles não sabemos mais nada.Meu avô nunca soube o que aconteceu com os parentes que ficaram por lá. Nunca mais teve notícias...ele acha que morreram todos no holocausto, ou talvez no cerco à Leningrado.E tem quem diga que nada disso aconteceu...

Zoe disse...

amiga, como as suas raízes são profundas e se estendem por essa europa acima!pode imaginar a dor do seu avô ao pensar na família que nunca mais viu nem sabe o que lhe aconteceu?

Turmalina disse...

É Zoe..meu avô também já se foi...ai,ai, ai tô parecendo aquelas pessoas que só contam desgraças, né? E agora é que acho que a continuação da história da minha família se foi.Mas tudo bem também, porque meu filho terá muito o que contar de seus pais e seus avós :o)
Bjossss