sábado, 24 de outubro de 2009

Todos os Nomes


Ainda dizem que este país é cinzentão, que nada se passa e que anda tudo deprimido. Discordo em absoluto. Os últimos tempos têm sido dos mais animados que temos conhecido, mais animado que isto só mesmo Las Vegas [onde tenho o sonho kitch de um dia casar]. A semana começou como o lançamento do novo livro do nobelizado Saramago e as suas polémicas declarações que puseram em polvorosa toda a gente. Muitas gente acha que se trata apenas de estratégia publicitária, mas não partilho dessa opinião, ele diz o que lhe apetece como o meu merceeiro, o dono do café, o zé da esquina e eu própria, só que ele foi prémio nobel e as suas declarações não têm o impacto das nossas. Relativamente a isto, defendo qualquer coisa do género de Voltaire, isto é, não concordo com o que dizes, mas defendo (Voltaire acrescenta até à morte, eu retiro) o direito de o dizeres. Considero que Saramago faz uma interpretação literalista da Bíblia e além disso da parte generaliza para o todo. Tem o direito de o fazer e de o escrever. Mas, nós também temos o direito de comentar sem sermos apelidados de inquisitoriais. Curiosamente dois dias antes do lançamento do livro e da polémica, portanto no sábado passado ofereceram-me uma Bíblia com tradução da sociedade bíblica e tendo almoçado em Telheiras, não resisti a visitar a Orlando Ribeiro e a requisitar livros e dvds, entre os quais Todos os Nomes, que estou a adorar. Pois é, a Bíblia e Saramago andaram juntinhos faz hoje oito dias no meu braçado. Estou a aprender com o tempo a separar o autor da obra. Só uma coisa, que me passou pela cabeça, gostava de ver Saramago a defender o direito à heresia na faixa de Gaza, isto é, não gostava não, que o processo de execução seria sumário, e o Saramago é um acérrimo defensor de circos sem animais, do fecho de zoos e abolição de touradas. Como eu. Não lhe desejo mal algum. No entanto, considerar a Bíblia um manual de maus costumes é muito básico e primário. Bom, que dizer então da História de Portugal onde o fundador da nossa nacionalidade enfrentou a mãe numa batalha, e a mandou prender? Aliás, uma coisa que sempre me fez muita confusão. E D. Diniz em guerra com o filho, e D. Afonso que arrancou o coração da infeliz D.Inês? E, por aí adiante. E, que dizer da História Universal? E, dos clássicos gregos? Bem, isso aí nem se fala. Saramago leu a Bíblia à século XIX e admiro-me como é que ainda não lhe fez confusão uma coisa: como tendo tido Adão e Eva dois filhos, Abel e Caim, e não tendo tido filhas, como é a humanidade descende desse casal.   
Mas, nesta semana animada há ainda oriundo da semana anterior, ou mesmo de há duas semanas, o vídeo da Maitê Proença, que já vomito por todos os lados. O vídeo é feio, de mau gosto, mas a indignação das virgens tugas é um bocado desproporcionada. A santinha já veio dizer que tudo não passou de uma brincadeira, de mau gosto, admitamos, mas uma brincadeira e já pediu desculpa, que é uma coisa que muito boa gente que chega atrasada não  faz. Adiante, o  que é lastimável connosco é que quando somos nós os  visados, somos extremamente misericordiosos e complacentes, lembrem-se daqueles jovens portugueses que em finais de Maio de 2007 desrespeitaram a bandeira da Letónia, foram julgados e presos. Pois é, foi só uma brincadeira, coitadinhos dos rapazes. Afinal, nós somos aqueles que temos brio nos nossos símbolos, que temos as nossas bandeiras __as que ainda restaram da euforia do euro 2004__, todas carcomidas pelo sol, rasgadas pelo vento, esfarrapadas e em fanicos nas janelas e varandas; ignoramos a letra do nosso hino, ridicularizamos o nosso PR (não falo do cidadão Cavaco Silva) mas ofendemo-nos muito com a ofensa aos nossos símbolos. E, como pessoas de insulto fácil que somos, os brasileiros são todos mentirosos, elas prostitutas, os black preguiçosos e cheiram mal, os ucranianos bêbados e mafiosos, os russos idem, os romenos ciganos, ficamos muito ofendidos quando alguém nos chama esquisitos...enfim, já chega de tudo isto.  
Ainda não acabou a animação: temos finalmente um governo. Gosto do olhar da nova Ministra da Educação, tenho um bom feeling em relação à pianista convidada para o cargo da Cultura, acho divertido terem convidado uma ex-sindicalista para a pasta do Trabalho, e à boa maneira portuguesa: Logo se vê! 
Ah, e tivemos todos os dias os Gato, brilhantes, brilhantes até à exaustão. Como disse Júlio Machado Vaz numa das suas crónicas na Antena 1: Num pais cinzentão (isso discordo) como o nosso, quem nos faz rir, é uma benção de Deus (é giro, vindo de um agnóstico). Por isso, não nos podemos queixar de falta de animação.
E, tivemos ainda o lançamento do novo livro de Lobo Antunes, mas isso terá de ficar para outras águas, pois mete fotografias e assim.

P.S. A da foto sou eu, a ler Todos os Nomes...

8 comentários:

WOLKENGEDANKEN disse...

Obrigada pelo excelente resume da paisagem politica portuguesa. Esta noite vou para passar uma semana no Atlantica. Talvez cruzamos na rua sem saber :)) beijinho

Zoe disse...

viva wolk
então, vens passar uma semana "no Atlântico" onde? Nos Açores, na Madeira? Ou em Lisboa? Era giro era, cruzarmo-nos sem saber...
boa viagem e votos de bom tempo..
beijinhos
zoe

Zoe disse...

wolk, esqueci-me de te agradecer teres achado excelente o meu resumo. a nossa semana esteve, de facto muito animada...
beijinho
zoe

Brácara disse...

Não posso deixar de achar piada ao facto de teres colocado uma imagem de uma japonesa, provavelmente uma "gueixa", no preciso momento em que me encontro no Japão.Vim hoje mesmo da cidade das "gueixas" - Quioto. Quanto ao livro "Todos os nomes" já o li e adorei... não fosse eu uma orgulhosa funcionária pública.

Zoe disse...

ave brácara, filha de mary.
pois é, eu sei que mesmo no japão me tens visitado. teve piada não teve a imagem da nipónicazinha a ler, mas, porque é que ela há-de ser uma gueixa???
todos os nomes é muito bom, n sou uma orgulhosa funcionária pública, mas possuo orgulhosamente uma pós-graduação em arquivos.ehh! eh! eh!
diverte-te no japão

Turmalina disse...

Quanta animação!!! Eu mesma já fui mais inflamada...rs...
Este seu post é uma lição, uma verdadeira síntese de assuntos em ebulição, sem a necessidade de fervura, no país aonde vive.Com direito à passado, presente e futuro... Adorei!!!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

As semanas em que a opinião política não domina as atenções, saõ sempre interessantes.
Gosto do Saramago -escritor,concordo que ele diz o que lhe apetece, mas penso que aquele arrazoado sobre a Bíblia foi mesmo estratégia de marketing.
Já agora... prefiro os Contemporâneos aos Gatos. E esta?

Zoe disse...

a tese da estratégia de markting, é uma opinião muito solidificada nos meios de comunicação social.
preferir os Gatos aos Contemporâneos é para mim surpreendente, pois com eles nem consigo esboçar um sorriso, então quando se põem a entrevistar "populares" do portugal profundo, aí é que mudo de canal...