domingo, 28 de junho de 2009

Ser lobo


Estou num momento da minha vida em que se me fosse dado a escolher o meu destino queria ser lobo, e correr durante dias e noites a fio por montes e valados, estepes e tundras, correr, correr e não pensar em nada, até cair exausta. Depois haveria de encontrar um lobo, uma alcateia e por lá ficaria. Lá, onde eu tinha caído exausta, sem força nem pensamentos.
Mas, não posso. E, depois quem haveria de tratar do Preto Cabeçudo? O gato que veio para minha casa três dias depois de eu ter começado este blog. Escanzelado, com peladas, parasitas nos ouvidos, cego de um olho, tenho aqui algures as fotografias do momento da chegada. O tempo passou, quase dois meses, tratava-se de uma pelada, logo surgia outra, e depois outra e outra, com uma paciência de job, o Preto Cabeçudo está há dois meses de colar isabelino e de vez em quando com uma espécie de crises de gastro-enterite. Já é a terceira injecção semanal que toma para a tinha ou a sarna, ou as duas. Sexta-feira fez as análises fiv e fev, o resultado não me surpreendeu, __vivendo na rua há uns dez anos e sempre envolvido em lutas territoriais__, mas fiquei devastada. As análises deram positivas, isto é, o Preto Cabeçudo tem a chamada sida dos gatos, um sistema imunológico com brechas por onde entram doenças de pele, gastro-enterites... Agora vamos ver se conseguimos controlar o virus, na próxima sexta vamos ao vet, adormecê-lo está totalmente fora de questão ou eu não me desejasse chamar Zoe. Adormecer vem sempre colado àquele lugar comum que as pessoas tanto gostam de vomitar mas que me irrita profundamente: «é melhor do que estar a sofrer!» Mas, ele não está a sofrer: come muito e com (muito) gosto, dá marradinhas e quando lhe passo pelo pêlo uma toalha embebida em água de malvas, ronrona tanto que até se baba! Isto é sofrer? Tenho o discernimento suficiente para ver que chegou a altura de tomar aquela decisão tão difícil e dolorosa. Até lá vamos lutar até onde as nossas limitações de animais-humanos nos permitirem. Está fora de questão voltar para a rua, mas também tem de estar separado dos outros por eventuais contágios. Por isso, não posso fugir por estepes e tundras. Nem posso ser lobo.

6 comentários:

WOLKENGEDANKEN disse...

Fugir por estepes e tundras nao serve a ninguem !!! O que tu estas a fazer sim que é util e bem feito e digno !!

Zoe disse...

estou a ficar sem forças, não tenho fins-de-semana, férias, nada. por isso queria fugir para longe, para o deserto, para qualquer sítio, uma estepe, uma tundra...

Luisa Moreira disse...

Zoe, peço-lhe desculpa, porque fiz aquele comentário, sobre o preto cabeçudo, meio estúpido porque não percebi de todo, o que estava a acontecer e entendi tudo mal.
Já tomei uma vez essa decisão já lá vão mais de 8 anos e ainda hoje me sinto culpada, sou bastante sensível a essas coisas.
Que ele vá vivendo com miminhos enquanto puder.
Está exausta Zoe.

Zoe disse...

luísa, não estou a ver o comentário que comentário que considera meio estúpido, por isso é porque não foi...
ainda por cima ele andamal da barriga, não sei se choro, se rio...

WOLKENGEDANKEN disse...

Para poder seguir ajudar a outros é preciso ocupar-se tambem de si mesmo para ficar com saude e energia, nao achas tambem ?

Zoe disse...

wolk, não só acho, como tenho a certeza que se não tratarmos de nós, não podemos tratar dos outros. mas,as coisas em vez de se aliviarem, complicam-se, o preto cabeçudo agora anda mal da barriga...